Trend que viraliza: médico precisa entrar em todas? Nas últimas semanas, ficou difícil passar pelo Instagram sem esbarrar em um tipo de conteúdo: objetos e alimentos “falando”, com carinha de personagem e uma dublagem engraçada. A ferramenta por trás pode variar (muita gente está usando o Flow, do Google, para gerar imagem e depois transformar frames em vídeo), mas a lógica é sempre a mesma: um formato fácil de consumir, com alto potencial de compartilhamento.
E aí vem a pergunta que interessa para quem faz marketing médico de verdade:
Se está viralizando, o médico deve fazer também?
A resposta honesta é: depende — e não é “depende” morno. É depende do seu posicionamento.
Por que esse tipo de vídeo viraliza?
Porque ele junta quatro ingredientes que o algoritmo ama:
- Entendimento imediato (em 1 segundo você já sabe “o que é”)
- Humor/fofura (gatilho emocional rápido)
- Formato repetível (todo mundo consegue copiar)
- Compartilhamento fácil (“manda pra alguém”)
Isso explica por que funciona tão bem para perfis de entretenimento e para produtos “do momento” (como foi com várias ondas de comidas virais).
Mas marketing médico não é só “o que dá view”.
O problema não é a trend. É o custo invisível.
Quando um médico entra em qualquer trend só para surfar alcance, ele pode estar pagando com uma moeda cara:
coerência de marca.
E coerência é o que sustenta confiança — especialmente em saúde.
Tem conteúdos que até geram alcance, mas deixam um rastro:
- infantilizam temas íntimos
- “descolam” o médico do lugar de autoridade
- atraem um público que não é o público ideal
- fazem o perfil parecer genérico (“mais um fazendo o mesmo”)
A pergunta não é “pode ou não pode”.
A pergunta é:
isso reforça ou enfraquece o que você quer que as pessoas penseem quando ouvem seu nome?
Um filtro simples: 6 perguntas antes de entrar numa trend
Antes de postar, responda com sinceridade:
- Meu público ideal consumiria isso sem estranhar?
(Ex.: pacientes de alta complexidade vs. público geral) - O tema permite leveza sem virar deboche ou infantilização?
Alguns assuntos não combinam com “fofura”. Principalmente quando envolvem dor, trauma, sexualidade, fertilidade, oncologia, luto, etc. - O formato me ajuda a educar melhor — ou só me dá alcance?
Se não existir uma entrega real, o alcance vira barulho. - Esse conteúdo aumenta confiança ou só aumenta números?
Seguidores não pagam boleto. Confiança sim. - Se alguém assistir só esse vídeo, entende meu posicionamento?
Ou parece um perfil “de trends”? - Eu teria orgulho desse conteúdo daqui a 2 anos?
Trend passa. Print fica.
Se você não consegue dizer “sim” para a maioria, a trend provavelmente não é pra você (ou não desse jeito).
“Tá, mas e as regras?” Onde entra a publicidade médica?
Mesmo quando a trend é “leve”, o médico continua dentro de um campo regulado. As regras atuais do CFM (Resolução nº 2.336/2023) e o Manual de Publicidade Médica reforçam que a comunicação deve evitar sensacionalismo, autopromoção e qualquer coisa que induza promessa de resultado — e que o caráter educativo e responsável é central.
Isso não significa “não use formatos modernos”.
Significa: use com intenção e com sobriedade.
Como usar trend sem perder autoridade (quando faz sentido)
Tem um caminho do meio muito bom: edutainment com postura.
O que adaptar para não infantilizar a comunicação
Algumas adaptações que funcionam melhor para médico:
- trocar “fofura infantil” por clareza didática
- manter humor sem personificar órgão de forma caricata
- usar o personagem como metáfora, não como “teatrinho”
- deixar a mensagem final como orientação prática + limites
- fechar com CTA coerente (consulta, avaliação, exames — sem promessa)
Exemplo de raciocínio (ginecologia)
Uma ginecologista pode falar de “saúde íntima” de forma leve? Pode.
Mas transformar “a vagina” num personagem infantil pode soar desalinhado com o posicionamento dela — principalmente se ela atende um público que busca acolhimento e maturidade.
Ou seja: não é moralismo. É estratégia.
O ponto central: viral é ferramenta, não é estratégia
Viralizar pode ser ótimo quando é consequência de uma mensagem bem colocada.
Viralizar vira problema quando passa a ser o objetivo.
Porque marketing médico não é um concurso de trends.
É construção de confiança em escala.
E confiança exige:
- consistência
- clareza
- repetição inteligente de temas
- e um tom que combina com a responsabilidade do que está sendo dito
Conclusão
Nem toda trend é para todo médico.
E tudo bem.
O melhor marketing médico é aquele que faz o paciente pensar:
“essa pessoa sabe o que faz — e eu me senti seguro aqui.”
Se a trend ajuda a construir isso, use.
Se ela só traz barulho, passe.
Assinatura:
Cláudia Flehr | CF Marketing Médico


