Páscoa: cuidar da alma também é parte da vida

A gente aprende cedo a cuidar de várias áreas da vida. Cuida do corpo com atividade física, alimentação, rotina e exames. Cuida do trabalho para ter estabilidade, pagar as contas, realizar planos, viajar e construir uma vida com mais tranquilidade. Mas, no meio dessa busca por equilíbrio, existe um cuidado que muitas vezes vai ficando para depois: o cuidado com a alma.

Para mim, esse cuidado está ligado a Deus. Está ligado à oração, à missa, ao silêncio, à escuta e à consciência de que a vida não se sustenta só no que é visível. Há uma dimensão interior que também precisa ser alimentada. E é justamente por isso que a Páscoa me toca tanto. Porque ela me lembra que fé não é um detalhe da vida. Fé pode ser direção, sustento e recomeço.

Num tempo em que tanta gente fala abertamente sobre escolhas políticas, estilos de vida e posicionamentos diversos, eu também gosto de dizer com naturalidade algo que faz parte de quem eu sou: eu sou católica, praticante, vou à missa e encontro na minha religiosidade uma parte importante da minha força. Não vejo por que ter vergonha disso. Ao contrário. Vejo como um testemunho sincero do que me sustenta.

Nem só de corpo e trabalho vive uma vida equilibrada

A rotina adulta nos empurra para aquilo que é urgente. Resultado, produtividade, agenda, prazos, contas, demandas da família. Tudo isso é real e importante. Só que uma vida equilibrada não se mantém apenas por desempenho. Ela também precisa de sentido.

Cuidar da alma não é abandonar responsabilidades nem viver fora da realidade. É reconhecer que existe um espaço interno que precisa de repouso, de esperança e de conexão com algo maior. Quando essa parte fica esquecida, a vida pode até continuar funcionando por fora, mas por dentro começa a faltar chão.

A Páscoa, para mim, é um convite justamente a isso: voltar ao essencial. Lembrar que nem tudo se resolve com esforço, técnica e controle. Há momentos em que o coração precisa de oração. Há fases em que a alma precisa de abrigo. E há dores que só encontram lugar quando a gente se aproxima de Deus.

H2: Minha religiosidade começou cedo, com a minha avó

Minha relação com a fé não começou agora. Ela vem de muito tempo. Ainda pequena, eu vivi momentos muito bonitos ao lado da minha avó. No fim do ano, ela fazia novenas com as vizinhas, e eu e a minha irmã adorávamos participar e ler. Eram encontros simples, mas cheios de sentido. Tinha comunidade, tinha devoção, tinha afeto e tinha a sensação de que Deus estava presente também nas pequenas coisas.

Além disso, ir à missa aos domingos sempre fez parte da minha vida. Não como uma obrigação vazia, mas como um ritmo que organizava o coração. Hoje, olhando para trás, percebo o quanto essas experiências da infância criaram em mim uma base silenciosa. Às vezes a gente só entende mais tarde o valor daquilo que recebeu cedo.

A religiosidade foi sendo construída assim: em gestos repetidos, em tradições familiares, em orações compartilhadas e nessa presença amorosa da minha avó, que me apresentou a fé de uma forma simples, concreta e muito verdadeira.

A fé ganhou outra força quando a vida apertou

Com a chegada do meu filho, a fé ganhou um lugar ainda mais profundo em mim. E isso se fortaleceu principalmente na adolescência dele, que foi um período difícil para nós dois. Foi uma fase intensa, delicada, daquelas em que a vida emocional parece ficar atravessada por todos os lados.

A adolescência do meu filho chegou junto com a minha menopausa. Eram hormônios de todos os lados: os meus acabando, os dele chegando. Hoje eu consigo até olhar para isso com humor, mas, naquela época, foi realmente desafiador. Havia cansaço, sensibilidade, conflitos, dúvidas e a sensação de estar tentando encontrar equilíbrio em meio a um turbilhão.

Foi nesse período que a minha fé em Deus, a oração e a missa me ajudaram a atravessar um momento crítico. Não porque os problemas desapareceram magicamente, mas porque eu encontrei amparo. Encontrei força para continuar, serenidade para respirar e lucidez para não me perder no meio daquilo tudo.

Quando o cuidado da alma deixou de ser teoria e virou necessidade

Tem fases da vida em que a espiritualidade deixa de ser uma ideia bonita e passa a ser necessidade real. Foi assim comigo. Eu percebi, na prática, que a alma também adoece quando não encontra abrigo. E percebi que fé não é só uma herança da infância. É um recurso vivo para atravessar a vida adulta com mais profundidade.

A oração me ajudou a reorganizar pensamentos. A missa me devolveu perspectiva. A presença de Deus me lembrou que eu não precisava carregar tudo sozinha. E isso fez diferença de verdade.

Trabalhar com médicos também me ensinou a reconhecer Deus em silêncio

Ao longo de todos esses anos trabalhando com médicos, eu também vi muitas vezes a presença de Deus de forma muito concreta. Vi em cirurgias delicadas. Vi em pacientes que não estavam bem e depois se recuperaram. Vi em momentos em que a ciência, o preparo, a técnica e a mão de um profissional pareciam carregar algo maior junto.

Eu acredito profundamente na medicina, no estudo, na formação, na responsabilidade e na habilidade dos profissionais com quem trabalhei. Mas também acredito que existe graça em ação quando um médico consegue ser instrumento de cura, de alívio e de esperança para alguém.

Em muitos momentos, eu senti isso de forma muito forte: Deus concedendo clareza a um cirurgião, sustentando um médico, abrindo caminho para uma recuperação, consolando uma família e lembrando que o cuidado com a vida humana também é, de algum modo, um território sagrado.

O verdadeiro significado da Páscoa

Por isso, quando penso na Páscoa, não penso primeiro no chocolate, no almoço ou nas tradições comerciais desta época. Penso no seu significado mais profundo. Penso em morte e ressurreição. Penso em esperança. Penso na possibilidade de renascer por dentro, mesmo depois de períodos difíceis.

A Páscoa me lembra que a dor não tem a palavra final. Que o sofrimento não encerra a história. Que existe vida depois do desânimo, da angústia, do medo e do cansaço. Para quem crê, a Páscoa é uma mensagem poderosa: Deus continua presente e continua sendo fonte de renovação.

Num mundo tão acelerado, talvez essa seja uma das mensagens mais necessárias: a de que não basta apenas funcionar. É preciso ter sentido. E, para mim, esse sentido passa pela fé, pela oração e por essa decisão de manter Deus presente na vida, não como enfeite, mas como fundamento.

Falar de religiosidade também é uma forma de verdade

Eu sei que fé é um tema íntimo. E justamente por isso ele merece ser tratado com respeito. Mas também acho importante dizer que não deveria existir constrangimento em falar da própria religiosidade. Assim como as pessoas falam de tantas dimensões da própria identidade, também podem falar da fé que professam.

No meu caso, essa escolha é muito clara: eu creio em Deus, sou católica praticante e encontro na missa, na oração e na minha espiritualidade um eixo para viver. Não digo isso para convencer ninguém. Digo porque é verdade. E, às vezes, a verdade mais simples também é a que mais toca.

Talvez muita gente esteja cansada justamente porque cuida de tudo, menos da alma. Cuida da aparência, da agenda, do trabalho, dos compromissos e das metas, mas não reserva tempo para silenciar, rezar, agradecer e reencontrar o próprio centro. A Páscoa pode ser esse chamado de volta.

Nesta Páscoa, o meu desejo é simples: que a gente não se esqueça de cuidar da alma com a mesma seriedade com que cuida do corpo, do trabalho e da vida prática. Para mim, esse cuidado passa por Deus. Passa pela fé, pela oração, pela missa e pela certeza de que existe uma presença maior sustentando até os dias mais difíceis. Quando a alma encontra direção, a vida inteira respira melhor.

Por Claudia Flehr – CF Marketing Médico